Nem todo mundo quer o que todo mundo quer
Passei a minha vida inteira morando no litoral. Uma cidade à beira da praia, com vocação para receber turistas. Todo ano, assistia a uma comoção generalizada tomando conta de pessoas que vinham do Brasil todo para estar ali. Pessoas que economizavam meses para passar 10, 15 ou 20 dias de férias aproveitando a praia, o mar e suas belezas. E, para mim, aquilo não tinha sentido. Não tinha esse valor.
Para mim, habituada àquela realidade, o mar virou parte do cenário. A praia virou o lugar-comum.
Cresci vendo pessoas abdicando de outras viagens para estar ali, às vezes por verões e verões a fio. Vi aquela cidade se tornar um marco no turismo, crescer, ficar cada vez mais cara e, ainda assim, continuar atraindo as pessoas.
Agora, recém ex-moradora do litoral, consigo enxergar de outro ângulo o período da minha vida que passei lá. Cresci assistindo pessoas amarem e exaltarem o lugar que se tornou meu lar desde muito nova, enquanto eu sempre fiz muito pouca questão de estar lá. Nunca exibi um bronzeado, nunca me senti praieira, nem tenho equipamentos para passar o dia à beira-mar.
Hoje percebo que aquilo também se tornou uma luta interna. Eu me sentia deslocada e pouco à vontade em assumir que eu não gostava da praia. Não gostava da ideia de ir para um campo de areia, ouvir barulhos à minha volta, me sentir invadida por estranhos ao meu redor. E eu vivenciei essas experiências, tentei entender que sentido fazia, justamente porque estava imersa numa realidade onde havia sentido. Embora, para mim, nunca tenha feito.
O que me faz perceber que a gente se encaixa para caber. A gente se torna refém do que é igual e comum mesmo quando, em nosso íntimo, nos atraímos pelo diferente ou pelo considerado “do contra”. A gente se deixa, às vezes sem perceber, ir para onde a maré nos leva e nos vemos, como eu me vi, soterrada em meio à uma areia em que não queremos estar.
💥 DESTAQUE DA SEMANA 💥
Usar o ChatGPT prejudica o cérebro? O que sabemos, e o que não sabemos, sobre a 'dívida cognitiva'
Um estudo do MIT reacendeu a discussão sobre os efeitos do uso frequente do ChatGPT sobre o cérebro. A pesquisa acompanhou 54 pessoas durante quatro meses, divididas em grupos que usaram o ChatGPT, um mecanismo de busca ou nenhum recurso externo para realizar tarefas de redação. Os participantes que usaram a IA apresentaram menor atividade cerebral durante as tarefas, além de demonstrar menor capacidade de recordar o que haviam escrito e menor sensação de autoria sobre os textos.
Os pesquisadores chamaram esse possível efeito de “dívida cognitiva”: a ideia de que, ao delegar parte do esforço mental à inteligência artificial, podemos deixar de exercitar determinadas capacidades. A matéria, porém, ressalta que o estudo ainda é preliminar e não permite afirmar que o ChatGPT prejudica o cérebro. A pesquisa teve uma amostra pequena, foi realizada em um período relativamente curto e ainda precisa ser reproduzida e aprofundada. O que ela coloca em discussão é como o uso cada vez mais frequente da IA pode alterar a maneira como pensamos, escrevemos e nos envolvemos com tarefas que antes exigiam maior esforço mental.
💡 Criatividade
SP2B: um festival para pensar o que está mudando
O SP2B estreou em São Paulo reunindo quase 50 mil pessoas em uma programação que misturou tecnologia, inovação, negócios, criatividade e cultura. Ao longo de sete dias, o evento teve 750 painéis, cerca de mil horas de conteúdo, 2 mil palestrantes e 20 palcos, além de shows, filmes e outras experiências. A proposta foi aproximar profissionais, empresas, empreendedores, investidores, pesquisadores, artistas e representantes do poder público em torno de temas que atravessam diferentes áreas e ajudam a pensar as transformações do mundo atual.
O resultado da primeira edição já abriu caminho para a próxima: o SP2B está confirmado para 9 a 15 de agosto de 2027, novamente no Parque Ibirapuera. Para o futuro, a organização pretende ampliar a participação de pessoas de outras regiões do Brasil e fortalecer as conexões internacionais iniciadas nesta estreia. A ideia é fazer do evento um espaço cada vez mais amplo para encontros e discussões entre diferentes setores, mantendo a combinação de negócios, tecnologia, criatividade e cultura que marcou sua primeira edição.
🧠 Tendências
Você escolhe suas viagens ou o Instagram escolhe por você?
Uma pesquisa da Universidade da Geórgia indica que as redes sociais já influenciam os planos de viagem. Segundo o estudo, publicações com muitas curtidas e comentários podem fazer um destino parecer mais interessante e desejável, levando as pessoas a considerar experiências semelhantes para também obter reconhecimento social. Mais de 2 mil participantes, divididos entre baby boomers, Geração X, millennials e Geração Z, avaliaram diferentes destinos e disseram se teriam interesse em visitá-los a partir das publicações apresentadas.
O efeito variou entre as gerações: os millennials foram os mais influenciados, enquanto os baby boomers demonstraram menor impacto. Entre os mais jovens, especialmente a Geração Z, houve maior interesse por destinos menos comuns. No Brasil, uma pesquisa do Ministério do Turismo com a Nexus mostrou que 49% dos entrevistados usam redes sociais como principal fonte de informação para planejar viagens, enquanto 45% recorrem principalmente a recomendações de amigos e familiares. Entre os que mais utilizam as redes para esse fim, 63% têm entre 16 e 24 anos.
Se liga:
📻 Para Ouvir
ECO - Priscilla (Álbum)
Em ECO, Priscilla apresenta um álbum que amplia sua relação com o pop e explora diferentes sonoridades ao longo das faixas. O trabalho reúne canções que passam por diferentes atmosferas e mostram uma artista interessada em experimentar dentro da própria identidade musical. O disco também dá continuidade ao projeto ECOS INDEPENDENTES, criado por Priscilla para aproximar seu trabalho de outros artistas da cena independente brasileira. É um lançamento que vale pela experiência de ouvir o álbum como um conjunto, acompanhando as diferentes possibilidades que a artista explora ao longo do repertório.
🎬 Para Ver
Túmulo dos Vagalumes
Túmulo dos Vagalumes volta aos cinemas brasileiros nesta semana, em sessões da Cinemark a partir de 20 de agosto. Dirigido por Isao Takahata e lançado originalmente em 1988, o filme acompanha os irmãos Seita e Setsuko tentando sobreviver no Japão devastado pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial. Considerado um dos grandes clássicos da animação japonesa, o longa é conhecido por abordar a guerra a partir da experiência de duas crianças, com uma narrativa marcada por sobrevivência, perda e vínculos familiares. O relançamento dá ao público a oportunidade de rever a produção na tela grande e apresenta o filme a uma nova geração.
📚 Para Ler
Intuição - Inspiração Intuitiva Desbloqueando a Criatividade para Soluções Inovadoras
Nem toda boa ideia nasce de uma análise cuidadosa ou de um plano bem definido. Bernadette Jiwa explora o papel da intuição na criatividade e na inovação, mostrando como prestar atenção aos próprios instintos pode ajudar a perceber oportunidades e encontrar soluções para problemas complexos. Com exemplos e exercícios práticos, a autora também destaca a importância da curiosidade, da empatia e de entender o contexto antes de transformar uma ideia em algo relevante para outras pessoas.
“Quando as pessoas tentam demais ser elas mesmas, correm o risco de estar apenas imitando uma sombra.”
Thomas Merton
Leia a edição anterior ✨
Tem momentos em que a gente passa a se perceber pelos próprios olhos, em vez de se enxergar pelos olhos dos outros. É aí que começamos a reconhecer o que realmente faz sentido para nós — e entendemos quantas vezes tentamos caber em histórias que nunca foram nossas.
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Até a próxima!








