O fim do tempo inútil
A gente não consegue parar. Não conseguimos dar espaço livre para o nosso cérebro nem tempo de respiro para os nossos pensamentos. Ao primeiro sinal de desvio de atenção, alertas se acendem: pare de procrastinar; produza mais; tanto a fazer e você aí parado? Até o intervalo do almoço por vezes é sacrificado em nome de demandas que não incluem almoçar.
A exigência para o nosso rendimento crescer exponencial e sucessivamente minou a capacidade que tínhamos de usufruir do descanso e da reclusão. Do que fazíamos por fazer e que não exigia nenhuma supervisão de terceiros.
Agora, até nosso tempo livre precisa virar performance. Por isso, clicamos cada canto da cidade turística, compartilhamos as fotos do jantar, competimos para descobrir quem tem o hobby mais incomum e quem reproduz mais rápido a última trend importada.
Tempo livre? Não existe. Ele passou a precisar ser, obrigatoriamente, preenchido com algo que possa ser instagramável e compartilhado. Ócio? Não pode. Virou atestado de culpa. Virou sentença de ineficiência.
Virou sintoma inequívoco do nosso eminente fracasso como seres humanos.
Destaque da semana
Tédio pode estimular criatividade, memória e mudanças positivas, dizem especialistas
O tédio, geralmente tratado como algo a ser evitado, pode ter efeitos positivos quando não é imediatamente preenchido por outra distração. Segundo especialistas, ele pode funcionar como um impulso para mudanças, levando à busca por atividades mais significativas, além de favorecer momentos de conexão, criação e exploração.
A pausa também dá espaço para a chamada “divagação mental produtiva”, que pode ajudar na criatividade, na resolução de problemas e na formação de novas associações. Momentos de descanso em estado de vigília — como ficar alguns minutos sem consumir informação — também contribuem para a consolidação de memórias e para o processamento interno de experiências e valores. A proposta, portanto, não é abandonar a tecnologia, mas diminuir a troca constante entre aplicativos e estímulos e permitir que alguns momentos de ócio simplesmente aconteçam.
Demais notícias
💻 Tecnologia
Sem tela e com IA: conheça o aparelho que a OpenAI prepara para rivalizar com celulares
A OpenAI está preparando, em parceria com Jony Ive, ex-designer da Apple, um dispositivo de inteligência artificial que pode representar uma tentativa de romper com a lógica dos smartphones. A proposta é criar um aparelho sem tela, colocando a IA no centro da interação e reduzindo a dependência do modelo atual, baseado em aplicativos e interfaces visuais. O projeto marca também a entrada mais ambiciosa da OpenAI no mercado de hardware, em uma tentativa de criar uma nova categoria de dispositivo.
Mais do que um novo aparelho, a iniciativa aponta para uma possível mudança na relação com a tecnologia: em vez de recorrer constantemente a uma tela para acessar informações, aplicativos e serviços, a inteligência artificial poderia assumir esse papel de interface. A aposta ainda está em desenvolvimento e há muitas perguntas sobre como essa experiência funcionará na prática, mas o projeto indica que a OpenAI não está interessada apenas em disputar o mercado de aplicativos de IA — quer também repensar o dispositivo por meio do qual essa tecnologia chega às pessoas.
🎭 Cultura
E se Beyoncé, Bowie e Lady Gaga também fossem assuntos para falar de filosofia?
É essa a proposta do Filosofia Pop, ciclo que parte de grandes nomes da música para discutir temas como identidade, tecnologia, trabalho, criação e futuro a partir do pensamento de filósofos e teóricos contemporâneos. A programação coloca, por exemplo, David Bowie em diálogo com Gilles Deleuze, Beyoncé com Angela Davis e Rosalía com Silvia Federici.
Realizado pelo Centro Cultural FIESP a partir de agosto, o projeto chama atenção menos pelo evento em si do que pela ideia de aproximar o pensamento crítico de referências que já fazem parte da cultura popular. Em vez de tratar filosofia como algo restrito à academia, a proposta é procurar essas discussões na música, na estética e nos fenômenos culturais que atravessam o cotidiano.
Se liga:
📻 Para Ouvir
YOUNITE resolveu levar um dos refrões brasileiros mais reconhecíveis dos últimos anos para o K-pop. O grupo sul-coreano regravou “Acorda Pedrinho”, mantendo a melodia original, mas dando à produção uma nova leitura com arranjos e performance característicos do gênero. O lançamento acontece pouco antes da segunda passagem do YOUNITE pelo Brasil, marcada para setembro, criando uma conexão curiosa entre a música que nasceu em Curitiba e o público coreano que agora a interpreta.
🎬 Para Ver
A Última Casa
A Última Casa acompanha uma família que fica misteriosamente presa dentro da própria casa, sem conseguir abrir portas ou janelas e sem entender o que está acontecendo do lado de fora. Enquanto os recursos começam a diminuir, o isolamento transforma a rotina familiar em uma luta pela sobrevivência. Estrelado por Wagner Moura e Greta Lee, o suspense de ficção científica parte de uma situação doméstica simples para construir uma atmosfera de claustrofobia e ameaça constante.
📚 Para Ler
Desejo: descubra o jogo invisível que molda suas escolhas.
Nossos desejos talvez sejam menos individuais do que imaginamos. A partir da teoria do “desejo mimético”, do filósofo René Girard, Luke Burgis investiga como aprendemos a querer coisas, experiências e até estilos de vida observando o que outras pessoas valorizam. Essa dinâmica ajuda a explicar tendências, comparações, rivalidades e escolhas que parecem pessoais, mas podem ter sido influenciadas por modelos ao nosso redor. A reflexão não propõe eliminar o desejo, e sim entender de onde ele vem para fazer escolhas mais conscientes e menos guiadas pelo que os outros querem.
“Somos menos entediados do que nossos antepassados, mas temos mais medo do tédio.”
Bertrand Russell
Leia a edição anterior ✨
O tempo que antes simplesmente passava agora precisa produzir conteúdo, resultado ou alguma prova de que foi bem aproveitado. E, quando nada disso acontece, parece que estamos desperdiçando alguma coisa. Talvez estejamos mesmo. Mas não o tempo. A capacidade de simplesmente estar nele.
Siga a gente nas redes sociais e fique por dentro do nosso mundo.
→ @boletimfaisca
Até a próxima!








