Nenhum espetáculo à vista
Janeiro nos inunda de exigências disfarçadas de promessas. O mundo pede novo fôlego, energia renovada, mais entrega.
Entregar o quê?
O que muitas vezes passa despercebido é que a não entrega também é uma entrega. Quando não temos nada a oferecer, estamos comunicando um limite. Um olhar desatento enxerga estagnação onde, por vezes, existe a escolha silenciosa em sustentar o que já se construiu. Nem todas as nossas realizações precisam ser uma performance: subir no palco e incendiar a plateia. Nem sempre precisamos ter um assunto novo para debater no escritório - ou uma última viagem de férias maravilhosa para ostentar.
Podemos nos reservar ao direito de sermos comuns. Podemos pisar no freio, segurar na curva. A gente não precisa desempenhar o tempo todo.
Há períodos em que nada parece novo. Ainda assim, algo segue sendo mantido. A vida continua no que se repete, não nas versões enfeitadas que aprendemos a contar aos outros.
💥 DESTAQUE DA SEMANA 💥
A Barbie que nasceu para incluir crianças do espectro autista
A Mattel apresentou, na segunda-feira, uma Barbie inspirada no Transtorno do Espectro Autista (TEA) como parte da linha Fashionistas, ampliando o debate sobre inclusão e representatividade desde a infância. Desenvolvida ao longo de mais de um ano em colaboração com a Autistic Self Advocacy Network (ASAN), a boneca não busca representar um “modelo” único de pessoa autista, mas sim traduzir, de forma respeitosa, algumas das maneiras como crianças no espectro podem perceber e interagir com o mundo.
O cuidado aparece nos detalhes do design: roupas pensadas para conforto sensorial, articulações que permitem movimentos repetitivos, acessórios como fidget toys, fones com cancelamento de ruído e recursos de comunicação alternativa. Inserida em um portfólio que já inclui Barbies com diferentes corpos, deficiências e condições, a iniciativa reforça a ideia de que brincar também pode ser um espaço de empatia, reconhecimento e aprendizado, ajudando crianças — autistas ou não — a crescer em um imaginário mais diverso e acolhedor.
🛍️ Tendências de consumo
Menos estímulo, mais prazer: cafés especiais impulsionam nova cultura e estilo de vida no consumo da bebida
O consumo de café no Brasil tem passado por uma transformação à medida que a bebida deixa de ser apenas fonte de cafeína e passa a ser entendida como experiência cultural, sensorial e identitária. Histórias como a de Raphael Brandão, criador do Café di Preto, ilustram esse ponto de virada: impulsionado pela expansão dos cafés especiais e pela chamada Quarta Onda, o café passa a ser associado a sustentabilidade, rastreabilidade, tecnologia e também a debates sobre inclusão e memória histórica, rompendo com uma relação automática e pouco questionada com a bebida.
Apesar de o país ser o maior exportador mundial, o mercado interno ainda é dominado pelo café commodity, de torra intensa e menor qualidade, o que moldou o paladar nacional ao gosto amargo e “forte”. Mesmo representando apenas 1% do consumo, os cafés especiais vêm formando uma comunidade crescente, apoiada por redes sociais, cursos e cafeterias que apostam na educação sem esnobismo. Nesse novo estilo de vida, o café surge como ritual de pausa, prazer e autocuidado — um luxo acessível que convida à atenção, à curiosidade e a uma relação mais consciente com o tempo e com o que se consome.
🎭 Cultura
É do Brasil! Wagner Moura e “O Agente Secreto” são premiados no Globo de Ouro 2026
O Brasil fez história no Globo de Ouro 2026 na noite do último domingo com o desempenho do filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho. A produção recebeu três indicações na premiação e saiu com dois troféus importantes, sendo um deles o de Melhor Ator – Filme de Drama, conquistado por Wagner Moura por sua interpretação no longa. Moura se tornou o primeiro brasileiro a vencer um prêmio de atuação na categoria principal do Globo de Ouro, superando nomes como Joel Edgerton, Michael B. Jordan, Dwayne Johnson, Jeremy Allen White e Oscar Isaac na disputa.
No discurso, o ator falou em inglês, mas fechou sua fala em português com uma mensagem ao público brasileiro: “viva o Brasil, viva a cultura brasileira!”. O Agente Secreto continua colecionando reconhecimento internacional — incluindo prêmios em Cannes e no Critics Choice Awards — e a vitória no Globo de Ouro reforça sua projeção global.
SE LIGA:
📻 Para Ouvir
Golden - HUNTR/X
“Golden” é a música central de Guerreiras do K-Pop e acompanha um dos momentos-chave da animação, quando as personagens se unem para enfrentar o conflito da história. A faixa foi pensada para funcionar dentro do filme, mas rapidamente ganhou vida própria fora dele. Após o lançamento, liderou a Billboard Hot 100 por oito semanas, um feito incomum para uma canção ligada a uma animação. No último domingo, venceu o Globo de Ouro 2026 como Melhor Canção Original, tornando-se a primeira música de K-pop a receber o prêmio. O percurso de “Golden” ajuda a mostrar como o K-pop tem ultrapassado o formato dos grupos e ocupado espaços centrais no cinema e na indústria musical global.
🎬 Para Ver
All Her Fault
A série está disponível no Prime Video, tem oito episódios e é baseada no livro homônimo, que acompanha o desaparecimento de Milo, um menino de cinco anos. A história começa quando sua mãe percebe que ele nunca esteve na casa de um colega, como havia sido combinado. A partir daí, a busca envolve polícia, familiares e amigos, enquanto tensões e desconfianças vêm à tona. Para além do suspense, a série observa como a maternidade é atravessada por cobranças, culpa e julgamentos constantes.
📚 Para Ler
A voz na sua cabeça: Como reduzir o ruído mental e transformar nosso crítico interno em maior aliado
O livro examina o diálogo interno e como ele pode atrapalhar ou favorecer nossa forma de pensar e decidir. Ethan Kross argumenta que o problema não é a voz interna, mas a relação que estabelecemos com ela quando se torna ruminativa. Com base em pesquisas em neurociência e psicologia, o autor propõe estratégias para ganhar distância emocional dos próprios pensamentos. A ideia não é silenciar a mente, mas mudar o enquadramento do diálogo interno, transformando-o em uma ferramenta de autorregulação.
É bom ter um fim para o qual caminhar; mas, no fim, é o caminho que importa.
- Ursula K. Le Guin
Leia a edição anterior ✨
Essa edição não fala sobre avançar, mas sobre sustentar escolhas, hábitos, ritmos e as vozes internas que nos acompanham. Conviver com um pouco de monotonia e diminuir o ritmo também pode ser bem-vindo. Entre pausas, reconhecimentos e gestos menos vistosos, permanece a ideia de que nem tudo precisa virar espetáculo para ter valor.
Seguimos atentos ao que se constrói no intervalo — no que se repete, no que inclui, no que permanece mesmo quando o mundo pede mais do que podemos dar.
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Até a próxima!






